A TVR voltou. Após anos de incerteza, a marca inglesa lançou o novo Griffith na esperança de recuperar os seus anos dourados. Será que vai no bom caminho?

No início dos anos noventa, após muito ter lido na imprensa inglesa sobre a TVR, decidi meter-me num avião e ir visitar a fábrica de Blackpool, uma estância balnear na costa oeste da Grã-Bretanha que, na altura, me diziam ter mais hotéis (a maioria familiares) do que Portugal inteiro. Como as coisas mudaram, desde essa altura!...

Chamar aos barracões que visitei uma “fábrica” era um eufemismo tolerável pelo impacte dos carros que de lá saiam. Chassis tubulares a ser soldados por mecânicos de beata ao canto da boca e o inconfundível cheiro da fibra de vidro a secar, dentro de moldes do tamanho dos carros. Tudo isto me foi mostrado até com algum orgulho, enquanto carroçarias prontas a ser pintadas esperavam no pátio interior, à chuva. Mas isso passou para segundo plano quando me deram para as mãos um Chimaera vermelho para eu guiar durante o dia nas estradas rurais inglesas. Claro que choveu, mas a sensação de agarrar no volante e ouvir o V8 a gargarejar lá na frente, ainda hoje é uma memória bem viva. A TVR tinha na altura tanto sucesso que era a marca britânica com maior produção anual (mas apenas cerca de mil carros por ano) e pensava em ser uma alternativa à Porsche. Tal foi o entusiasmo que decidiu deixar de usar o fiel motor V8 da Rover e construir os seus próprios motores de seis cilindros em linha e V8. Foi o princípio do fim.

Peter Wheeler, o dono da TVR entre 1981 e 2004, era um sonhador acompanhado por um cão que ficou para a história por ter comido um naco de uma maquete em argila do Chimaera, mesmo em redor dos faróis de nevoeiro dos para-choques. Wheeler achou a forma resultante interessante e foi assim que parte da forma de um carro foi definida por um cão.

Em 2004, os motores da TVR Power tinham acumulado demasiados problemas de fiabilidade e a imagem da marca estava a decair. Foi então que surgiu o mini-magnata russo Nikolay Smolensky, demasiado novo para fazer a marca progredir e claro que a TVR faliu. Em 2013 surge finalmente Les Edgar, que tinha feito fortuna em jogos de vídeo e era um apaixonado pela marca. Na semana passada, após quatro anos de trabalho sério, Edgar apresentou o novo Griffith, feito com base no conceito iStream Carbon, que junta uma estrutura tubular com painéis de materiais compósitos colados e carroçaria em fibra de carbono. É uma invenção do reputado engenheiro Gordon Murray, que junta leveza, rigidez, simplicidade e baixos custos. Perfeitamente adaptada a uma marca como a TVR que tem a ambição de produzir 2000 carros por ano, a partir do seu quinto ano, sabendo-se que a nova fábrica, agora sita no País de Gales para receber incentivos fiscais, ainda não começou a ser feita. O motor central/dianteiro é uma versão revista e melhorada pela Cosworth do V8 5.0 que a Ford usa no Mustang, aqui com mais de 500 cv.

Les Edgar quer um TVR à moda antiga, leve, potente e ligeiramente intimidante. Mas será que esta é a receita que o mercado específico dos superdesportivos está à espera? Ouvir Edgar dizer que “a conetividade no Griffith não é feita via Wi-Fi, mas através da embraiagem, alavanca da caixa, do motor, dos pneus e da física” pode ser divertido, mas será que está em consonância com aquilo que os compradores querem? Será que voltar ao passado, é mesmo a melhor receita, sabendo que era a única que o grupo de milionários liderados por Edgar estava disposta a seguir?

Para ter sucesso, além de tudo o mais, a TVR terá que conseguir ir lançando novidades a um ritmo quase anual. É que os entusiastas ricos cansam-se depressa dos seus “brinquedos” e querem sempre voltar à “loja” para comprar o último grito da moda. Se fizer bem as coisas, a TVR vai declinar o máximo de versões deste novo Griffith, como faz a Aston Martin com o Vantage ou a Porsche com o 911. Para isso vai ser preciso gastar mais dinheiro antes de receber algum retorno, apesar de um grupo de potenciais compradores até já ter deixado depósitos de £5000 com antecedência, para guardar lugar na fila de entregas do Griffith.

O que se torna ao mesmo tempo refrescante e preocupante, consoante o ponto de vista e a idade dos interessados, é que a TVR não fala de versões híbridas, Plug-in ou elétricas. Será que estar fora de moda poderá ser a nova moda?

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