Sem campanhas e sem descontos promocionais, este Chevrolet Cruze Sport de 5 portas com motor 1.7 VCDi de 130 cv custa “apenas” 21 250 euros. Não há no mercado melhor relação entre espaço, potência e equipamento.

Vivemos uma época em que a palavra “preço” consegue alterar por completo uma escolha ou decisão mais importante que tenhamos de tomar na nossa vida. Foi precisamente este aspeto da crise que pudemos avaliar nos dias em que conduzimos o Chevrolet Cruze de 5 portas equipado com o motor 1.7 VCDi de 130 cv, o mesmo bloco que encontramos no Opel Astra.

Infelizmente não foram muitas as pessoas que se “apaixonaram” pelas linhas do Cruze, mas bastou dizer o preço para que a “coisa” mudasse imediatamente de figura. Entre o “este carro é estranho” ou o “a frente escapa... já o resto é feio”... Ouvimos poucos comentários abonatórios em relação à estética. Assim que se mencionava o preço: “custa 21 250 euros... tal e qual como este está” os potenciais interessados aumentavam ao ponto de quererem entrar no carro e perceber aquilo de que falávamos.

O que oferece
O Cruze Sport (5 portas) mede 4,51 m, ou seja, é maior que a maioria dos modelos de segmento C mais vendidos e custa o mesmo que um Renault Clio com motor 1.5 dCi de 105 cv ou um VW Polo 1.6 TDI de 90 cv. O equipamento de série não inclui grandes luxos, mas abarca os elementos essenciais e até alguns inesperados, como os sensores de estacionamento atrás e controlo de estabilidade, entre outros.

Esteticamente, a secção dianteira é semelhante à do modelo de quatro portas, mas a traseira perde alguma personalidade neste formato de cinco portas pelo facto de ser demasiado banal. As jantes de 16 polegadas raiadas completam o figurino que se enquadra perfeitamente no panorama automóvel português. Convém não esquecer que para rentabilizar o projeto, o Cruze nasceu como um carro global, tendo sido criado no centro de design da Coreia do Sul, mas recebendo o contributo dos centros europeu, americano e australiano. O resultado é, por isso mesmo, um automóvel que acaba por ser uma mescla de várias influências, não se destacando negativamente em nenhum ponto e desenvolvido para agradar a um infindável número de culturas.

Por dentro o Cruze não nega as influências do seu “irmão” de segmento Opel Astra, com o qual partilha também a plataforma. Todavia, no modelo americano esta não contemple as soluções de suspensão e direção inovadoras do modelo alemão.

O volante é semelhante, a disposição dos comandos na consola central também(o Cruze concentra menos botões que o Astra e tem um tablier mais “limpo”) e até as hastes dos indicadores de mudança de direção e do limpa para brisas são as mesmas. As maiores diferenças surgem quando comparamos a qualidade dos materiais. A qualidade geral peca pelo recurso a plásticos menos nobres e por uma montagem perfectível, outro dos “segredos” para manter o preço competitivo, ainda que nada daquilo que se vê choque demasiado. Notam-se algumas folgas nos painéis interiores, mas nada mais do que isso. Existem ainda alguns apontamentos curiosos como o painel de instrumentos com iluminação por LED, o sistema de som integrado ou as aplicações em tecido no tablier, que camuflam de forma eficaz a qualidade menor dos materiais.

O espaço é outro dos grandes argumentos deste automóvel. Tanto à frente como atrás, qualquer passageiro viaja com à vontade e lugar para arrumar confortavelmente as pernas. Os espaços de arrumação também abundam e encontramos um alçapão com tampa no topo do tablier, um buraco mais pequeno junto ao comando da caixa de velocidades, dois porta-copos e um encosto de braço com tampa que inclui no interior uma tomada AUX (a entrada USB é opcional). A bagageira alinha pelo mesmo diapasão ao oferecer 413 litros e um acesso excelente graças à carroçaria de cinco portas que permite ter um portão maior e mais amplo.

Mais do que suficiente
Até agora, o Cruze estava apenas disponível com motor 2.0 VCDi de 150 cv, potente e de excelente utilização, mas que não permitia à marca afastar-se da concorrência mais direta em termos de posicionamento de preço. Com este 1.7 VCDi o caso de muda de figura e permite à Chevrolet colocar no mercado um automóvel mais barato que a concorrência, logo mais apetecível. Os 130 cv e os 300 Nm disponíveis às 2000 rpm deixam antever uma liberdade de movimentos que em nada fica a dever aos 150 cv do motor 2 litros. E a verdade é essa mesmo: o Cruze nunca se mostra anémico e anda muito bem. Apesar do binário estar disponível apenas às 2000 rpm, não se revela amorfo abaixo desta marca e permite arranques mais fáceis sem “ir abaixo”.

Continua a faltar-lhe algum refinamento, principalmente ao ralenti e nos arranques, uma vez que se sente constantemente alguma aspereza e ruído de funcionamento que é amenizado quando se para, altura em que o sistema “start/stop” entra em ação para “calar” o motor. A partir das 2000 rpm, o 1.7 VCDi acorda para a vida. Sente-se um “empurrar” vigoroso, como comprovam os 10,2 segundos medidos pelo Autohoje nos clássicos 0 aos 100 km/h (o 2.0 VCDi gasta menos um segundo) e a saída de situações de trânsito mais complicadas faz-se de forma célere. A caixa de velocidades também não é um primor. É pouco precisa e algo lenta, mas faz tudo bem em condução normal e raramente se falha uma passagem, mesmo que a utilizemos de forma mais apressada. Outro ponto que está de acordo com o preço deste Cruze são os consumos.

Surpreenderam-nos pela positiva. Em voltinhas de quotidiano, em trajeto misto, o computador de bordo registou uma média de 5,6 l/100 km.

Se há coisa que nunca nos poderemos queixar no Cruze é de solidez e conforto. É um automóvel de pisar sólido e robusto e é muito confortável a rolar, digerindo de forma competente as irregularidades do asfalto. A suspensão de taragem mais suave permite isso mesmo, mas já não é tão cooperante quando tentamos fazer uma ou outra curva de forma mais apressada. Contudo, neste capítulo, não é apenas a suspensão que não ajuda. A direção um pouco vaga também não é um preciosismo de engenharia. Quando se dá mais volante em andamento rápido para se fazer uma curva apertada perde progressividade e a frente tem tendência para “enrolar”, criando uma manobra pouco eficiente. Mas, como o Cruze está longe de ser um desportivo, é seguro e eficaz numa condução diária ou numa viagem mais longa em autoestrada com toda a família a bordo.

A conclusão é fácil de encontrar: o Cruze não é um automóvel que apaixone pelas linhas ou pela condução, mas é um automóvel completo e muito equilibrado, seja pelo preço, pelo conforto, pela garantia de três anos e até pela lista de equipamento. Custa menos 4400 euros que a versão 2.0 VCDi de 150 cv (que perde espaço na gama) e paga por ano menos 90 euros de IUC que este. São mais os prós que os contras.

 


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